Você não é um pato, você é um diamante 💎

Profissionais diamante estão nas interfaces por convicção. Acreditam que o valor que acrescentam ao mundo está nas conexões que buscam promover entre diferentes campos de conhecimento — e essa é a sua especialidade.

O nome diamante vem da principal característica que distingue esse cristal das demais pedras preciosas: a capacidade de decompor a luz branca nas cores do arco-íris (vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta). Assim como os cristais promovem essa mudança no modo de vermos a luz, os profissionais diamante têm uma maneira única de enxergar o mundo. Por isso, têm condições de observar fatos e analisar dados a partir de diversas perspectivas, o que faz deles exímios solucionadores de problemas.

Se generalistas são patos, especialistas são toupeiras

Profissionais generalistas são, pejorativamente, chamados de patos. A comparação se dá pela ideia de que ambos têm diversas habilidades, mas nenhuma delas é plenamente desenvolvida. O pato nada, voa e corre, mas não tão bem quanto um pássaro, um peixe e um coelho nessas mesmas funções.

Não seja um pato. Um pato faz um monte de coisa, mas não faz nada direito. Não tem foco. É indeciso, não sabe o que quer. É superficial, não se aprofunda em nada. É um desesperado que atira para todos os lados.

Essa concepção se opõe diretamente à ideia do profissional especialista, que é visto como focado, determinado, alguém que sabe o que quer e que tem condições, como ninguém, de solucionar os mais labirínticos desafios, pois domina uma área. Se víssemos o especialista a partir de uma perspectiva pejorativa, tal qual fazemos com o generalista, poderíamos chamá-lo de toupeira — um mamífero subterrâneo, praticamente cego, que se alimenta de minhocas e que ocasionalmente sobe à superfície da terra. Assim, se fossemos tão cruéis com o especialista como somos com o generalista, ele ouviria coisas como:

Não seja uma toupeira, que não enxerga um palmo à frente do nariz. Você será limitado e monotemático, só conseguirá falar sobre a mesma coisa o tempo todo. É muito chato, porque essas pessoas não conseguem se comunicar direito com os demais e não veem a importância do todo, acham que só o trabalho delas importa.

O pensamento de que um especialista sabe muito e um generalista sabe pouco é uma falácia completa. Ninguém domina nada hoje, o mundo muda o tempo todo e só conseguimos ter noção de uma pequeniníssima fração de conhecimento, mas não é esse o ponto que interessa a esta discussão. O ponto é: enquanto especialistas têm profundidade, generalistas têm amplitude, e ambas as visões são extremamente necessárias para a evolução da humanidade, embora a sociedade esteja valorizando excessivamente a figura do especialista.

Teoria dos cones do conhecimento e os profissionais diamante

Para explicarmos essa dualidade entre amplitude (generalista) e profundidade (especialista), vejamos, por um momento, nossos saberes dispostos como cones. Quanto mais nos aprofundamos em uma área, mais mergulhamos em direção ao fundo do cone. Por consequência, perdemos campo de visão. O contrário também é verdadeiro.

Diamantes no mundo de hoje

No último século, o conhecimento da humanidade cresceu tanto que se pode dizer que, hoje, ele dobra a cada 12 horas. Sabemos que esse avanço incentiva o surgimento de novos campos e, por consequência, impulsiona também a necessidade de especialistas. Por isso, acredito que, em pouco tempo, os diamantes não serão mais negligenciados pelo mercado e pela academia.

A nossa sociedade há muito tempo se deu conta de que precisa de especialistas. No entanto, quanto mais especialistas, mais barreiras o conhecimento interdisciplinar — tão necessário para a evolução da humanidade — enfrenta. É esse processo que evidencia a necessidade de profissionais diamante.

Acredito que esse fenômeno já esteja em curso, embora caminhando ainda bem lentamente: já estamos notando a dificuldade de conexão entre áreas muito específicas. Trago aqui alguns exemplos relacionados à tecnologia, pois estão mais próximos do meu cotidiano, mas o paradigma é válido em mais áreas:

  • Há 2 anos, acompanhei de perto o processo de remodelação do portal de notícias de uma das maiores emissoras de TV do Brasil (um profissional muito próximo de mim integrou a equipe). O objetivo do projeto era rever a estrutura das páginas, substituir o layout por um mais moderno, incluir novas funcionalidades no site e melhorar a experiência de navegação no portal. No entanto, o desconhecimento dos desenvolvedores sobre a área de jornalismo resultou em um erro na escolha da tecnologia de banco de dados, o que limitou o funcionamento da busca do site. Além disso, toda a categorização de notícias foi construída no backend sem seguir a lógica de editorias de um jornal, o que dificultou o acesso aos conteúdos de acordo com essas categorias. O site foi para o ar com os problemas relatados e com todas as consequências desses erros para o público. Fico pensando no bem que um jornalista programador faria a essa equipe: ele se daria conta desses problemas imediatamente.
  • Em um projeto da área da saúde para o qual prestei assessoria de imprensa durante um tempo, os pesquisadores buscavam uma forma de facilitar processos de cura e regeneração de tecidos humanos com o uso de células-tronco. Para tanto, desenvolveram uma espécie de suporte — feito em impressoras 3D— que favorecia a transformação das células-tronco nos tecidos previamente determinados pelos cientistas. Essa conexão entre a saúde e a tecnologia era realizada por um pesquisador da área de física, especialmente envolvido com engenharia de materiais e nanotecnologia, mas com muito conhecimento sobre biologia e química.
  • Ao tratar de interdisciplinaridade com um docente da área de Letras, ele me contou brevemente esta história sobre uma orientanda: parte da pesquisa de doutorado dela consistia em identificar a ocorrência de certos tipos de construções linguísticas em obras literárias, e que isso era feito manualmente. Já no final do doutorado, depois de toda a pesquisa feita, eles casualmente descobriram que havia um software para automatizar esse processo e que a informática também tinha uma linha de pesquisa sobre o mesmo assunto, mas com um nome diferente. Esse caso já faz uns 5 anos, mas volta e meia me pergunto se isso teria acontecido caso as seleções de pós-graduação fossem menos fechadas a candidatos de outras áreas e tivéssemos mais cientistas de computação nos cursos de linguística e vice-versa.
A ideia de que o generalista é um pato já morreu

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Jornalista, assessora de comunicação e programadora 😉

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Tatiany Lukrafka

Tatiany Lukrafka

Jornalista, assessora de comunicação e programadora 😉